Um dia comum, um lugar comum, uma pessoa comum.
Até meus seis anos eu pensava que todo mundo era igual a mim.
A cara, a casa, a família, as brincadeiras, o material do início da escolinha, o uniforme...
Foi aí que eu sangrei pela primeira vez.
Eu não era igual. Nada era igual!
Quanto mais eu tentava ser igual, mais a diferença aparecia.
E eu sangrei mais...
A medida que eu crescia a diferença se especializava.
Eu não era rápida o suficiente
A diferença se tornou cruel e sangrei ainda mais.
Meu sangue sempre foi igual.
Vermelho, quente, com gosto de metal.
Mas EU era diferente, então meu sangue decidiu não se afastar de mim.
Ele grudava no meu corpo, manchava a minha roupa, emplastrava no meu cabelo e se acumulava debaixo dos meus pés me fazendo escorregar.
Eu fugi!
Eu fugia, corria, escorregava, caia, fugia, corria....
Até que ele resolveu endurecer.
As crostas se acumulavam nos meus pés. Lentamente foram tomando as minhas pernas. Elas ficaram tão pesadas quanto o chumbo.
Eu não podia mais correr!
Parei de vez.
Não havia mais como fugir.
Aquela montanha de sangue seco, escuro, tão velho quanto os meus dias estava ali - exposto.
Era eu ... imóvel. Só me restava observar
Então eu olhei. Descobri que através do meu sangue eu enxergava muito melhor.
Foi aí que eu vi o porquê d'eu ser diferente... e gostei.
Eu sou diferente!
